(qualquer semelhança com a realidade é pura ficção)
- “Então senhor João como tem passado…fez uma boa viagem?” Perguntei. “
- Não, não fiz…quer dizer, a viagem até foi boa, mas o pior foi chegar à cidade. Sentir esta gente a correr por todos os lados…o meu lugarejo é muito mais agradável…há pouca gente, conhece-os a todos e quase todos me querem bem…aqui as pessoas são estranhas, sinto-me que me observam...são todos tão estranhos..."
-“Quer dizer que as visitas à cidade não lhe são muito confortáveis…” Observei, em jeito de pergunta.
- “Não gosto de Lisboa…esta cidade, com tanta gente põe-me confuso e olhe que eles continuam a perseguir-me…eu sei que andam por aí…vêem de todos os lados…eles pensam que eu não os vejo, mas em cada esquina eu vejo olhos que me perseguem.”
-“Então e o senhor João tem medo que "eles" lhe façam mal…é isso?
-“Medo, medo, propriamente não será, mas tenho algum receio…esta gente da cidade não é de fiar…mas se alguém me quiser fazer mal, tem que se haver comigo…”
-“Mas diga-me senhor João, essa gente de que fala tem nome, você conhece-os a todos”?
-“Eu não doutor, nem preciso saber os nomes…agora que me perseguem…tenho a certeza absoluta...se calhar o doutor pensa que eu estou para aqui a inventar… ò senhor doutor a enfermeira que está lá fora é boa como o milho… o que eu lhe fazia se pudesse!…mas olhe, se eu quiser eu mato-os a todos ouviu doutor…mato-os a todos, está a ver isto aqui…está a ver? Pum, pum, pum...e resolvo logo o problema."
O senhor João acabava de retirar do bolso das calças um revólver e brandindo-o, tal como uma espada, soltava imprecações em alto e bom som … “Está a ver isto aqui…eles que se atrevam…e faço-lhes cair que nem passarinhos…”
Fiz-lhe um apelo à calma, e ele, olhando para mim com um sorriso inusitado, disse-me com um semblante angélico…
“- Não tenha medo doutor... a si não o mato porque tem cara de boa pessoa…”
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.