Se tenho medo de amar? Que pergunta tola... Medo eu?…Eu não tenho medo de nada, a não ser que me falte o salário no fim do mês, o resto pouco me importa… Afinal quem é mais importante do que eu? Alguém merece que eu sofra, que eu chore, que me deprima? Não…ninguém. Já houve um tempo em que acreditei que a vida nada significava se não fosse partilhada, mas já não sou ingénuo, agora só me tenho a mim, compreende?
Já sei que me vai perguntar porque persisto em cá vir…Nem eu sei como responder-lhe… Talvez porque me cansei de falar comigo mesmo, talvez, porque os meus monólogos sejam invariavelmente amargos e inconsequentes, talvez porque o eco das minhas próprias palavras me vai corroendo a alma, se é que ainda a tenho...talvez porque a esperança se esvai a cada dia…
Sempre fui egoísta; sempre guardei para mim o melhor bocado, nunca me interessei verdadeiramente pelos outros, a não ser para possuir o que neles invejava. Tem à sua frente um vampiro, uma besta, um verme, um parasita, um dejecto que não merece viver…mas eu sei que não está aqui para julgar-me, não é verdade?
Penso que alguém já se encarregou de o fazer…se é que existe esse alguém, que dizem ser justo e misericordioso…São poucos os meses que me restam de vida, agora nada mais me interessa senão partir e levar comigo uma réstia de esperança neste coração empedernido.
As lágrimas contidas libertaram-se em cascata toldando-lhe o rosto, e, aquela atitude resoluta e convicta, deu lugar a um novo personagem, como se, de repente, retirasse a máscara e fosse verdade - Sinto falta das coisas simples da vida, agora que ela se esvai como areia entre os dedos… seria bom que a tivesse celebrado todos os dias e agradecido cada hora, cada minuto... mas perdi-me, perdi-me irremediavelmente entre emoções e afectos não correspondidos…
É insuportável saber que ninguém me chorará quando partir… saber que ninguém estará por perto por amor ao que trago no peito…dói tanto…
Os seus olhos baços fitavam-me agora, numa espécie de súplica, como se eu fosse tábua e ele naufrago…Será que lhe posso pedir um abraço, perguntou.
Fernando Barnabé

10-07-2009 23:39
Fiz uma vez um poema, em que uma das quadras dizia assim:
“Quem fica, quem chora eu não lamento
Eu também já chorei! Quem se importou?
Quem olhou para trás, quem lamentou?
Quem foi que me amparou no sofrimento?”
Com o passar do tempo, sinto que vou deixando pe pensar assim…
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.