Psicoastro - Psicologia e Astrologia com Fernando Barnabé
 
 

Se fosse mais nova…


Estou farta…mesmo farta Carência. Para te ser franca Maria da Míngua, se fosse mais nova, já aqui não estava …e olha que não ia p´ra muito longe…cada vez me sinto mais pequenina e triste neste país de faz de conta. Tenho, e que Deus me perdoou o que vou dizer…tenho vergonha de ser portuguesa. Ainda ontem estive a falar com a Maria Miséria, aquela que mora ali na Praça da Alegria…e nem calculas como a filha se tem safado lá por Espanha. Ganha mais dinheiro a trabalhar nessas casas de hamburgas do que o Silvério dos computadores. Quem é esse Silvério? Oh mulher…então não tu não te lembras do filho da Dolorosa, aquela que o marido teve muito mal o ano passado do coração. Ah… esse, que até fez um estágio na América, já me lembro mulher…esta cabeça está cada vez pior…é das apoquentações e dos malabarismos que tenho que fazer com a pensão do meu falecido…é uma tristeza, a gente quase que morre de fome.

Se não fosse lavar as escadas das donas nem sei como me aguentava…elas é que me vão dando algum se não nem pra comer chegava. Mas oh mulher, tu com setenta anos ainda lavas escadas? Oh filha, enquanto me aguentar e as forças chegarem que remédio…e olha que não tenho andado muito bem aqui da máquina…qualquer dia…

Eu, é mais os bicos de papagaio mulher, às vezes até me custa levantar da cama. Mas olha lá…agora a falar a sério, tu se fosses nova ias mesmo daqui pra fora…tinhas coragem de largar tudo? Oh filha, queres maior coragem que esta… viver com 240 euros por mês? Lá isso é verdade mulher…E já pensaste nestes jovens que por aí andam com cursos superiores e tudo, sem emprego, a bater com a cabeça nas paredes. Olha o Rogério…o filho da Luísa da Lástima…que cabeça tinha aquele rapaz. Trabalhava e estudava à noite…o sacrifício que fez e vê bem onde está ele agora. Coitado, não resistiu…tanta luta, tanta luta e no fim acabou com a vida. Ele pensava demais Carência…digo-te uma coisa, quanto mais pensamos pior...eles é que se abotoam, querem lá saber de nós que trabalhámos uma vida inteira…olha, fico-me por aqui para não desatar a dizer asneiras e subirem-me os nervos à cabeça… ainda me dá uma coisa!

Mas se fosse nova não pensava duas vezes…punha-me daqui pra fora enquanto o diabo esfrega o olho. Isto nem dá gosto viver mulher…olha, nunca te disse isto, mas às vezes apetece-me fazer como o pobre do Rogerinho, que Deus lhe tenha em paz.

Oh mulher tu chega-te pra lá com esses pensamentos…ave agoirenta... Mas diz-me lá tu o que é que a gente anda pra aqui a fazer…pensa só um bocadinho; lutamos para sobreviver, nada temos que nos alegre os dias… quem é que quer saber de nós? Os maridos já cá não estão, os filhos também lutam com dificuldades…é o destino mulher…é o destino, nascemos pobres e pobres havemos de ir. Mas não te inquietes que matar não me mato…enquanto puder indo fazer as minhas coisinhas, a lida da casa, ir à praça fazer uma compritas, a coisa vai indo…mas se fosse mais nova…ai se fosse mais nova!…ia aprender espanhol e ala que lá vou eu.


Fernando Barnabé

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FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.

Desde a adolescência que se sentiu atraído pelo estudo do esoterismo. A Astrologia, no entanto, revelou-se, pela sua linguagem rica em simbolismo e significado...


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