Lembro-me do tempo em que eu era Robin Hood, o meu grande herói de infância. Colado à televisão a preto e branco, a minha mente vagueava por entre bosques e castelos ao ver aquela figura mítica, rebelde e jovial, que roubava e desafiava os ricos para dar aos pobres. Fascinava-me o seu perfil libertador e carismático, a tal ponto, que no meu sótão, era ver um enorme arsenal de espadas, arcos e flechas, que distribuía pelos restantes pirralhos de rua, incansáveis companheiros de luta contra as injustiças que o malvado do Xerife de Nottingham infligia aos plebeus.
Organizávamos torneios medievais e brincávamos aos bons e aos maus num beco estreito que era mais do que isso, era floresta de Sherwood, era fortaleza, era tudo o que a nossa mente fantasista quisesse imaginar.
Morríamos e ressuscitávamos num ápice; entravamos pelas traseiras da mercearia do senhor Costa numa correria brutal e saímos pela entrada principal, conduzidos por cavalos imaginários, alheios às imprecações do dono que se assustava com aquelas súbitas “visitas”. Era uma festa o beco da minha infância, cenário de sonhos e do faz de conta, que interpretávamos como ninguém; Hollywood não poderia ombrear connosco na arte da representação, tamanho era o nosso virtuosismo.
Éramos vida e dávamos vida até que ouvíssemos o “toque” a recolher. À noite, muitas vezes, esperava-nos uma sova, mas esse era o preço a pagar pelas queixas do senhor Costa, para quem os “cavalos” lhe roubavam os fregueses.
Passaram quarenta anos. Num assomo saudosista visitei há dias o beco da minha infância. Estava deserto, morto. Não vi nem ouvi crianças. As janelas estavam fechadas ao mundo e os cavalos já não relinchavam ao entrar na mercearia do falecido senhor Costa, agora tansformada num estabelecimento de pneus.
Vi que circulavam carros em vez de corcéis…emocionei-me; tinha sido feliz naquele beco e agora nada restava desse passado…ainda tentei apelar à minha fantasia ressuscitando à pressa o Robin Hood que existia (e existe) em mim, mas uma buzina estridente e apressada, arrebatou-me o sonho.
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.