Era uma mulher inteligente e de uma lucidez ímpar. Estava sentada à minha frente e fitava-me com um ar provocador. “Então, não me responde Dr.? Presumo que o seu silêncio diz tudo. Acha-me uma doida varrida não é verdade?” Não lhe respondi. Lançei-lhe apenas um olhar, misto de respeito e admiração.
Filha da terra e dos ribeiros, Maria era mãe solteira.Tinha vindo aos 14 anos para a cidade tentar a sua sorte. Engravidou três anos depois fruto de um amor condenado ao fracasso. “A minha patroa nunca desconfiou de nada. Eu amava-o para além do razoável mas nunca o pressionei para que se dedicasse a mim exclusivamente. Sabia que ele não era feliz com a minha patroa, mas respeitava-os na sua infelicidade”.
Maria tinha agora 23 anos. Saíra de casa dos patrões aos 18 antes que o seu estado lhe redobrasse a culpa.
Alberto, apaixonara-se por ela desde o primeiro momento em que a vira. Depois propôs-lhe casa e afecto. Ela aceitou mais pelo filho que trazia dentro de si.
Cinco anos de revelações dolorosas. Descobriu, nos braços violados de Alberto, que já não era a sua heroína e como era difícil ser duplamente mãe. Maria secou.
Dois anos de terapia. Maria conheceu a alegria no convívio leal com os seus próprios fantasmas. Deu-lhes de comer e de beber, afagou-os, passeou com eles em silêncio, atenta aos seus murmúrios, aos seus ecos e rumores. Outras vezes não lhes prestava atenção, sobretudo, quando se insinuavam em círculos estonteantes.
Hoje são muito amigos, às vezes zangam-se, mas sabem perdoar-se mutuamente. É uma amizade que penso vai perdurar eternamente já que se baseia no diálogo, na aceitação e respeito pelas suas próprias contradições.
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.