- “Oh senhor! oh meu senhor! “
Alguém me chamava do outro lado da rua. Reconheci-lhe a voz. Cruzara-me com ela várias vezes a caminho de casa. Ficava à porta da rua vendo passar as gentes com quem tentava entabular conversa. Do rosto, outrora belo, desprendia-se um olhar intenso e vago e um sorriso inusitado vermelho púrpura. As mãos tremiam-lhe sacudidas violentamente pela doença, mãos, que algumas vezes vi afagar um cão senil, erguido em três patas, companheiro incondicional de tantas jornadas.
Atravessou a rua. –“ oh senhor, oh meu senhor espere aí um bocadinho, não se vá embora que quero falar consigo.”
Trazia nos lábios a cor e o sorriso de sempre e nos olhos marinhos claros uma expressão de loucura iluminada. Veio falar-me do filho, do seu “príncipe lindo”, que lhe garantia o sustento e das “más línguas” que dele tinham inveja.
– “Vê aquela janela? É ali que ele vive” E olhava para o alto de um prédio na ânsia de o avistar. - “ Mas ele não anda bem sabe…vejo-o muito triste, sinto que a alegria lhe foge”.
À medida que falava as ideias sobrepunham-se caóticas e dos braços exaltados, as mãos, pareciam querer despegar-se, tamanho era o tremor. Depois, mudando subitamente de conversa olhou para as mãos assustadas e sorrindo foi dizendo:
- “Sabe, estas mãos já fizeram lindos bordados…tenho-os em casa …gostava tanto que um dia os fosse ver…”
O convite soou-me a súplica e pude ver nos seus olhos expectantes o vazio do seu existir. Acenei-lhe que sim com a cabeça, disse-lhe que iria. Ela abriu-se num sorriso caloroso e eu senti-me por momentos o seu príncipe.
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.