(Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção)
Outubro de 1995
- “Isso até nem é um grande problema. Se vier a acontecer, tenho um bom álibi.” Foi essa a sua resposta. Perguntei-lhe surpreso a que álibi se referia e fiquei nesse momento num estado de alguma inquietude. Fixei-me na sua expressão facial. Da boca desprendia-se um sorriso macabro de quem tem em mente uma ideia diabólica há muito engendrada; do olhar, sinais de indisfarçável provocação.
Tentei não reagir de imediato e esbocei um sorriso na tentativa de dissimular o assombro. O assunto de que tínhamos estado à conversa, era sério, demasiado sério para ser tratado com leviandade. Tinha à minha frente alguém gravemente perturbado e o caso exigia atenção redobrada.
O discurso era ardiloso, enigmático, ziguezagueante, feito de omissões e incongruências e aquele esgar; sim, porque não era na verdade um sorriso, encerrava alguma malignidade; aquela malignidade travessa a precisar de um açoite.
“ Posso sempre dizer que me piquei numa agulha”. E o esgar acompanhou a frase, deixando perceber uma qualquer perversidade inconsciente. Percebi no momento que não era apenas o prazer que a movia. O seu mundo hedonista estaria subjugado a uma necessidade maior que jazia funda e insondável, como metástase galopante e invisível.
Fitei-a, com um olhar grave e perguntei-lhe se tinha consciência do que me estava a dizer.
“ Claro que tenho, ou pensa que sou estúpida”. “Não vou nem quero prescindir dos meus desejos e fantasias sexuais; tenho prazer no que faço e como o faço” prosseguiu.
- "E a sua família? Os seus filhos e pacientes que têm de si uma imagem sem mácula de mãe e de cuidadora? Não são importantes para si? Não a preocupa o facto de que algo grave lhe possa acontecer? De os deixar sós e indefesos porque não lhe dá prazer ter relações protegidas?" Perguntei.
A cabeça altiva e o olhar provocador esconderam-se, ofuscados por alguma réstia consciente, quem sabe se ateada pelas minhas derradeiras palavras. Ficou imóvel por alguns momentos; momentos que senti eternos e indescritíveis. O tronco dobrava-se-lhe sobre o regaço e o seu corpo elegante e belo parecia definhar a um ritmo alucinante. Sentia-a agonizar como besta atingida por letal veneno.
Os olhos em alvo, agora mortiços pareciam expressar uma dor antiga - a dor de uma alma condenada.
Não interrompi o momento, apenas fiquei a olhá-la mudo e quieto observando incrédulo a sua metamorfose. Depois, abracei a sua dor, e, no mesmo instante, senti-me envelhecer pelo peso desmedido daquela "maldição".
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.