Estava sentada ao meu lado no banco das urgências do hospital. Os olhos mostravam a febre que lhe consumia o corpo. Ardia a criatura!
Era uma senhora dos seus sessenta e cinco anos, de traços finos e amáveis, apesar das dores que a tolhiam. Percebi que sofria… muito... mas a sua atitude face ao sofrimento, que chegou sem pedir licença, era de uma serenidade invejável.
A enfermeira deu-lhe um comprimido para baixar a febre…vinte minutos depois dizia-me com candura: - "Já me sinto melhor sabe…a quimioterapia por vezes prega-me destas partidas", revelando o parco cabelo escondido pela toca, sem qualquer constrangimento.
Tinha ultrapassado já aquela fase em que o sentimento de raiva dá lugar à resignação, à aceitação natural de que “somos seres para a morte”, e que a partida não é mais do que uma necessidade da alma, também ela sedenta por novas viagens.
Fitou-me e disse-me com um sorriso cândido: “Desculpe lá a minha curiosidade…e o jovem… o que faz por cá…está doente? Olhe que não parece…que belas cores tem…decerto já foi apanhar uns banhos de sol…se eu pudesse era o que fazia…já viu como estou branquinha? O meu pai, que Deus o tenha, também era assim…”
Não consegui articular palavra…olhei-a nos olhos azuis agora descongestionados e pensei como seria bom, que, com um simples toque de mão, pudesse operar um milagre. Um sentimento antigo de impotência e de frustração incontidas focalizou-se na garganta...abandonei a sala à pressa, antes que a minha heroína desse conta que os homens também choram.
Fernando Barnabé

Cristiano Costa
06-06-2010 15:40
Adorei este relato amigo Fernando.
Um grande abraço em ti e acima de tudo agradeço-te a beleza desta partilha :)

Cristiano Costa
06-06-2010 15:40
Adorei este relato teu amigo Fernando.
Um grande abraço em ti e acima de tudo agradeço-te a beleza desta partilha :)
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.