Saiu de casa com a raiva estampada no rosto. Enquanto caminhava, repousava o olhar nas pedras da rua, pensando de si para si que merecia melhor sorte. Aquela casa não era mais a sua casa, aliás nunca o fora. O passado era o seu presente e o futuro vago e incerto. Felizardo não esquecia. Pousou o corpo titubeante num banco de jardim olhando para o alto, as estrelas não lhe respondiam e há muito que a sua se apagara. Soltou um grito lancinante, misto de desespero e de impotência e ficou mudo de repente esperando alguma resposta. Ninguém o escutara.
Conhecia o ruído vindo da porta. Quase todas as noites o esperava. Enquanto não o ouvia ia antecipando a dor. Felizardo, pequeno corpo a afundar-se no colchão, pressentia já os passos incertos que carregavam a culpa e a vergonha. Eram como
vergastas que a alma aceitava chorando, no entanto, os seus olhos, raramente o deixavam perceber. Vivos e penetrantes, fugiam a qualquer olhar observador, talvez com medo que descobrissem por detrás do seu brilho a culpa e a vergonha que não eram suas.
A chave depois de várias tentativas encontrava a ranhura, a porta abria-se e Felizardo parecia mirrar por debaixo dos lençóis. Não precisava olhar, já sabia quem entrara, donde vinha e como vinha. As cenas que se seguiriam não lhe eram estranhas; sempre iguais no drama, pareciam de um filme, mas este era real, demasiado real para ser acompanhado com pipocas e coca cola. Tristão, envolto em vapores etílicos tentava fechar a porta de mansinho, na inocência de que, com um pouco de sorte, não se faria notar. Amargurada, sentada na cama, na sua postura de vítima-carrasco, há muito que o pressentira, e a raiva, que durante a espera armazenara, explodia sobre Tristão queimando-o todo por dentro, muito mais do que o bagaço.

mirian
02-03-2010 14:37
achei legal mais oq eu queria saber é qual o significado da palavra bem me quer
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.