Um problema genético detectado após o nascimento remeteu-a há já 33 anos para um estado de absoluta falta de autonomia. Entre a cama do hospital e o seu leito os dias passam iguais, cinzentos, sem uma réstia de alegria, sem uma luz que lhe revigore o espírito e o corpo lácteo.
Via-a nascer. Era uma menina perfeita, de feições correctas, respirando saúde e alegria. Dois meses depois, aquela que era o orgulho dos pais e da família, passou a ter problemas de saúde relacionados com falhas no seu sistema imunitário. Os seus comportamentos também não correspondiam aos esperados para a idade, daí que, após alguns exames médicos, o veredicto foi implacável. “Esta menina nunca poderá fazer uma vida normal, porque tem uma doença genética de alguma gravidade”.
O choque abalou toda a família. Os pais interiorizaram as palavras do médico e foi vê-los protegê-la de todos os perigos, de todas as correntes de ar, do Sol e da chuva, da escola, dos afectos, em suma, da vida. Não os culpo, as suas limitações não lhes permitiram fazer melhor, mas fico com um grande nó na garganta e um sentimento intenso de frustração quando a vejo prostrada no leito com aquele olhar triste e resignado de condenada a quem mataram todos os sonhos.
Pergunto-me se esta jovem não poderia ter tido outro percurso, se as suas fragilidades não poderiam ter sido minimizadas, e, quando dentro de mim surge a resposta, uma espécie de revolta parece querer invadir-me.
Visitei-a há pouco mais de uma semana. Estava com uma crise asmática provocada pela ansiedade que a tem assaltado ultimamente. Ficou feliz por me ver…sorriu, para logo em seguida desabafar toda a sua amargura. Confesso que me emocionei…doeu-me a alma, o corpo todo…quero ajudá-la, é urgente ajudá-la... que as energias sapientes do cosmos possam por fim a esta dura provação...ou a divida está longe de ser saldada?
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.