A luz do Sol não lhe animava a mente. As ideias eram escuras como nuvens ameaçando o trovão. Era impossível, naquele estado caótico centrar-se, focalizar-se em algo verdadeiramente palpável, objectivo. As ideias surgiam-lhe implacáveis não lhe dando espaço ao repouso e há muito tempo que assim era.
Volteava na cama tentando acompanhar o ritmo frenético daquelas aparições obscuras que rodopiavam castigadoras, mas não conseguia apaziguá-las. Soltou um grito agudo que ecoou por todos os cantos do quarto, mas ninguém estava por perto, nem sequer um gato ou um cão, presenças terapêuticas costumeiras, testemunhas de solidões inconfessadas.
Resolveu levantar-se e seguir o rumo que lhe dava acesso à sala…caminhou uns passos, escassos, como escassa era a dimensão do seu ninho e sentou-se no cadeirão balouçante herança dos seus avós. Enquanto o movimento autista lhe distraía a mente, descansou o olhar numa imagem jovial e terna que vivia suspensa numa parede da sala.
A mente permanecia toldada, mas permitia agora a entrada ténue de um raio de Sol, ténue, mas suficiente para recordar a história tantas vezes contada, quando na sua inquietude de infância o sono tardava.
Adormeceu...uma voz cálida, marcada pela sabedoria dos tempos sussurrava-lhe ao ouvido como um murmúrio de vento: “Era uma vez uma linda princesa que vivia inquieta no seu castelo à espera do seu príncipe encantado… dilacerava-lhe a alma a solidão dos dias e das noites…sentia-se tão só…
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.