Psicoastro - Psicologia e Astrologia com Fernando Barnabé
 
 

Depois do roubo…


"Não, não posso registar a ocorrência", disse-me a agente de autoridade com olhos de quem tinha sido acordada de um longo sono. "O sistema não está a funcionar…dirija-se à esquadra mais próxima (e deixe-me continuar a dormir, deveria ter pensado) e dê conta da ocorrência, pode ser numa esquadra qualquer", acrescentou.

Tinha acabado de ser assaltado. Levaram-me a mala da bagageira do carro e com ela a chave de casa e um documento que continha a indicação da morada para além de documentação relevante.

Cresceu-me a revolta e com ela a indignação... não sabia o que fazer, se me dirigia rapidamente a casa ou se tentava descobrir a mala nas imediações. De nada valeu a procura, nem sequer a tentativa de encontrar algum agente da autoridade que fosse sensivel ao meu infortúnio.

Resolvi à pressa dirigir-me a casa. O cenário que ia construindo pelo caminho não era nada animador…"a esta hora já teriam tido tempo para assaltar-me a casa", pensei. Sentia um aperto no peito e as palavras da sonolenta polícia martelavam-me os tímpanos a um ritmo incessante – “O sistema não está a funcionar…dirija-se à esquadra mais próxima”…“O sistema não está a funcionar…dirija-se à esquadra mais próxima”.


Eram três horas da manhã e eu só queria chegar rapidamente a casa; as chaves que tinha deixado na mala eram as únicas que me restavam, e, embora soubesse que não poderia entrar, a minha presença decerto poderia dissuadir alguém que me quisesse fazer uma "visita". Subitamente, avisto um aparato enorme de policias de intervenção armados com metralhadoras, que me fizeram sinal para encostar. Incrédulo, parei o carro e fui abordado por um agente que me disse que saísse da viatura. Contei-lhe rapidamente o sucedido e pedi-lhe que me deixasse prosseguir viagem. “Saia do carro imediatamente, não quero saber das suas histórias…sopre aqui no balão”. Soprei, “Então tenha uma boa noite e boa sorte”, disse-me com hipocrisia o agente.

Cheguei a casa, ou melhor, à porta de casa. Estava fechada. Pensei ser um bom indicador, mas cada vez mais se me apertava o peito.

Eram cinco horas quando alguém da firma que entretanto contactara tentava proceder à abertura da porta – “Lamento dizer-lhe mas não vou conseguir abri-la; é uma fechadura de alta segurança e só por volta das dez horas poderei trazer as ferramentas necessárias para a sua abertura, mas quando regressar tem que ter aqui um agente da polícia que me autorize a continuar, e, para além disso, vai ter que conseguir um documento carimbado por algum comerciante daqui da zona que certifique que o senhor habita neste apartamento, senão nada feito…", disse.

Às oito horas da noite do dia seguinte, depois de diligentes contactos com a polícia para que estivesse presente à entrada da minha morada, da apresentação da declaração do barbeiro do bairro que compreendeu a minha aflição e de doze brocas destroçadas, finalmente entrei em casa. Estava intacta, mas pela primeira vez na minha vida, depois de tanta raiva e indignação reprimidas desejei não ter nascido português. A senhora agente tinha razão…o sistema não estava a funcionar…para alguns, é claro.


Fernando Barnabé

Deixe o seu comentário
 

© 2008 PSICOASTRO - Todos os direitos reservados.
Todos os conteúdos e trabalho gráfico apresentado, estão protegidos por leis de propriedade intelectual.

FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.

Desde a adolescência que se sentiu atraído pelo estudo do esoterismo. A Astrologia, no entanto, revelou-se, pela sua linguagem rica em simbolismo e significado...


(+351) 91 845 54 45