Um quinto andar. Olhava para a caixa de comprimidos com aparente serenidade. Duas opções, o mesmo desafio. Era fácil, muito fácil cumpri-lo, pensou. Ela que tantas vezes se esgueirara pelas vielas do espaço, procurando em desespero aliviar a dor de respirar, já não fantasiava. Agora era a sério. Percorreu sem pressa num ritmo pesado e circular o quarto impecavelmente limpo. Sentou-se na cama com o olhar perdido na fotografia do filho que lhe parecia pairar sobre o móvel. Clamou em silêncio por Cristo, por Júpiter, por todos os anjos. Silêncio. Fez-se silêncio. Um silêncio doloroso para quem desde sempre julgou que “alguém” a protegia. Já estava habituada há muito, a que não lhe respondessem. De súbito a porta. Batiam à porta. Por instantes pareceu-lhe apenas um som inventado à pressa. Foi abrir. Nenhum corpo, nenhuma presença. Dirigiu-se à janela, confusa. Uma lágrima despegou-se da alma vazia, duas, três, muitas, todas as que não chorara desde que aquilo acontecera.
Com as mãos segurou com firmeza o retrato. Devolveu-lhe o sorriso e nele a certeza que tinha compreendido.
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.