Deitada na cama, esquadrinhava como habitualmente o peito saliente enquanto assistia atenta a um programa televisivo. O gesto maquinal deixou de o ser quando sentiu entre os dedos uma pequena massa nodosa mas suficientemente perceptível. – Ontem não estava cá, ou estaria e eu não me apercebi? Pensou.
Ruborizada, levantou-se em silêncio da cama, desligou a televisão e sem acordar o marido que dormia a seu lado dirigiu-se à sala. Sentou-se ansiosa no sofá, e agora, mais concentrada, iniciou a palpação. As mãos húmidas começaram então a subir e a descer os dois peitos em pequenos movimentos circulares. Não havia dúvida, no peito esquerdo insinuava-se um vulto, que, apesar da sua pequenez, era suficientemente concreto para que a sua atormentada mente construí-se ali um filme horrendo e assustador.
Via-se só, completamente abandonada, sem os dois peitos, sem cabelo e sem ânimo, para enfrentar tão cruel provação; um barulho vindo do quarto fê-la voltar ao presente. O marido tinha dado pela sua falta e dirigia-se à sala. - Então minha querida o que se passa? O que fazes aí? Que cara é essa? Não te estás a sentir bem?
Ela, sem levantar a cabeça, murmurou – Encontrei um pequeno nódulo no peito esquerdo, uma coisa minúscula…e, num assomo realista, lá foi dizendo: - Não deve ser nada, só hoje é que percebi que o tinha, não há razão para alarme – De qualquer modo, disse ele acariciando-lhe a face, vamos amanhã ao médico para saber que opinião tem ele…ora mostra lá minha querida…deixa-me ver o que descobriste. Ela disse-lhe que sim que iria, congratulando-se por ele querer acompanhá-la, ao mesmo tempo que sentia as suas mãos quentes e dóceis percorrerem-lhe os seios. – Não, minha querida, não me parece que seja preocupante. Disse ele.
Uniram-se as bocas e os corpos não ofereceram resistência aos caprichos do desejo, antes enlaçaram-se, num frenesim imaculado e revelador. Amavam-se!
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.