Psicoastro - Psicologia e Astrologia com Fernando Barnabé
 
 

Abraçaram-se efusivamente!


A leitura da carta deixara-as impressionadas. Sentiam uma sensação estranha percorrer-lhes o corpo enquanto se abraçavam num misto de embalo e de consolo. Queriam articular uma palavra mas nada lhes saía; Teresa balbuciou algo imperceptível e olhou com ternura a amiga que segurava ainda a carta entre as mãos, uma carta que quis o destino entregar-lhe naquela tarde de Maio.

Já era tarde quando Fátima, movida por um qualquer obscuro impulso entrou no escritório do marido. O olhar, como seta, acertou na direcção de um livro que se encontrava ligeiramente desalinhado no alto de uma estante de nogueira, outrora pertença dos avós. Meticulosa como era, buscou uma cadeira e em bicos de pés tentou endireitá-lo; apenas conseguiu que o livro tombasse no solo de madeira impecavelmente envernizado e, com ele, uma carta sem selo e sem remetente que dela se desprendera.

Intuiu assim, porque estava segura de que não era sua, que poderia pertencer ao marido, Ricardo, com quem vivia há já seis anos.

O livro, amarelecido pelo tempo era-lhe desconhecido, mas tinha até um título sugestivo – “Da Mentira”. Contrastava com a brancura do envelope que abriu maquinalmente e sem qualquer espécie de pudor. Não havia segredos entre ela e o marido, portanto não sentiu que a sua curiosidade devesse ser reprimida. Abriu-o pois. Leu-a à medida que caminhava lentamente para a sala onde se sentiu desfalecer. Tomou dois calmantes à pressa e ficou por uns momentos largos com os olhos em alvo, entorpecida pelo efeito do químico.

As mãos ainda lhe tremiam quando pegou no telefone. Ligou à Teresa, vizinha de longa data que o tempo convertera na sua melhor amiga.

- “Teresa, Teresa, preciso que venhas cá a casa, por favor …”

- “O que se passa contigo Fátima…essa voz…pareces-me angustiada…fala, diz-me o que se passa contigo por favor.”

-”O André está aí?”

- Não, hoje vai chegar um pouco mais tarde, faz serão, nem me confirmou ainda se vem p’ra jantar, mas porque perguntas pelo André…estás a deixar-me inquieta Fátima”.

- ”Teresa, vem cá depressa, preciso falar-te pessoalmente…é urgente…eu ia aí ter contigo, mas não me sinto muito bem…vem já por favor.

- “Acalma-te, dá-me dez minutos”.

Teresa chegara rapidamente. Um mútuo olhar fugaz suprimira as palavras…não eram necessárias... Fátima apressou-se a entregar-lhe a carta pedindo-lhe que a lesse. Teresa, leu-a sofregamente e voltou a lê-la uma outra vez, agora em voz alta, certificando-se dos pormenores da missiva.

“Querido Ricardo, não sei como tenho conseguido lidar com tudo isto…tem sido tão difícil… sinto-me exausto… Cheguei a um ponto em que já não consigo mais esconder-lhe e esconder-me. Ela não merece esta omissão… Nunca amei outra mulher como a Fátima e é por respeito a esse sentimento, que lhe devo a verdade. Mas sou um cobarde… falta-me a coragem…e tenho tanto medo de perdê-la e de destruir o sonho de termos filhos…sabes como eu gosto de crianças não sabes? Que pergunta idiota se da minha vida nada me resta contar-te…Por vezes dou por mim a pensar como se foi instalando em mim este sentimento…pergunto-me tantas vezes como foi possível acontecer…Tento esquadrinhar nas memórias antigas, mas elas não me respondem…só me lembro daquele Verão como se fosse hoje. Estávamos de férias lembraste? ... os quatro como sempre, sobre um sol tórrido de Agosto que a brisa marítima ajudava a suportar…e foi naquele momento…no momento preciso em que o meu corpo se incendiava estirado ao sol que te vi surgir da água em alegre correria. Naquele teu jeito traquinas, repousaste em mim por breves segundos. Senti a frescura do teu corpo colado ao meu, o teu sorriso maroto quase roçando a minha boca e pela primeira vez na vida experimentei algo que julgara impossível. Desejei que te demorasses, desejei querer suportar o peso do teu corpo infinitamente…e senti que não haveria nenhum Sol de Verão que me pudesse aquecer tanto como naquele momento…Tu eras o meu Sol e continuas a sê-lo.

O que depois aconteceu como sabes, foi de um sofrimento atroz…sobreveio a angústia por medo de expor-te os meus sentimentos, mas felizmente, tive a coragem que agora me falta… fico-te imensamente agradecido por me teres compreendido e aceite como teu amante e amigo.

Não te quero perder, assim como não quero perder a minha mulher que continuo a amar…mas carrego esta culpa comigo que me torna insuportável os dias…gostava de poder conviver pacificamente com o meu sentir, tal como tu o fazes, mas não vou conseguir…conheço-me o suficiente para saber que só terei descanso quando lhe contar...assalta-me a culpa, cresce-me o remorso…mas sei que vou ter a coragem de poder dizer-lhe um dia, olhos nos olhos, que descobri algo em mim que se encontrava profundamente adormecido… se ela não me aceitar não a censurarei…mas a minha descoberta, a descoberta que faz parte da verdade de que sou feito não poderei amordaçar…nunca, e esta convicção a ti te devo...

Um beijo
André


Continuaram abraçadas, misturando lágrimas e fragrâncias; depois a serenidade chegou sem que a chamassem. Olharam-se fixamente nos olhos, cada uma tentando soltar uma palavra, um som que fosse, à medida que se acariciavam na face, nos lábios, na fronte…”Eu amo-o tanto”, disse Fátima.

Teresa soltou um suspiro de alívio e sorrindo disse-lhe:-”Quando casei com o André já o sabia…eu amava-o, amava a sua frontalidade, o modo como enfrentava o mundo; pelos cornos, sem medo. Essa autenticidade fez-me sorrir os dias e hoje ainda sorrio, porque continuo a amá-lo e sei que ele sempre me amará…para mim só isso conta. Autenticidade minha querida amiga é a chave para o amor, porque só com ela se ama.

Era uma conversa entre duas almas…duas almas prontas a reconhecer e a aceitar o amor e as suas diferentes dimensões.

Abraçaram-se efusivamente!

Fernando Barnabé

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FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.

Desde a adolescência que se sentiu atraído pelo estudo do esoterismo. A Astrologia, no entanto, revelou-se, pela sua linguagem rica em simbolismo e significado...


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