A leitura da carta deixara-as impressionadas. Sentiam uma sensação estranha percorrer-lhes o corpo enquanto se abraçavam num misto de embalo e de consolo sem que conseguissem articular palavra. Teresa olhava com ternura a amiga que segurava ainda a carta entre as mãos, uma carta entregue pelo destino numa tarde quente de Maio.
Já era tarde quando Fátima, movida por um qualquer obscuro impulso entrou no escritório do marido. O olhar, como seta, acertou na direcção de um livro que se encontrava ligeiramente desalinhado no alto de uma estante de nogueira, outrora pertença dos avós. Meticulosa como era, buscou uma cadeira, e, em bicos de pés, tentou endireitá-lo, apenas conseguindo que o livro tombasse no solo de madeira impecavelmente envernizado e, com ele, uma carta sem selo e sem remetente que dela se desprendera.
Intuiu assim, porque estava segura de que não era sua, que poderia pertencer ao marido, André, com quem vivia há já seis anos.
O livro, amarelecido pelo tempo era-lhe desconhecido, mas tinha até um título sugestivo – “Da Mentira”. Abriu o envelope sem qualquer espécie de pudor. Não havia segredos entre ela e o marido, portanto não sentiu que a sua curiosidade devesse ser reprimida. Lá dentro uma carta cuja letra era-lhe sobejamente conhecida. Leu-a à medida que deambulava lentamente pela sala ao mesmo tempo que uma sensação de desmaio eminente a levou ao sofá. Ainda não recomposta, tomou dois calmantes à pressa e ficou por uns momentos largos com os olhos em alvo, entorpecida pelo efeito do químico, ou, talvez, pelo inesperado assombro que aquela carta lhe produzira.
As mãos ainda lhe tremiam quando pegou no telefone. Ligou a Teresa, vizinha de longa data que o tempo convertera na sua melhor amiga.
- “Teresa, Teresa, preciso que venhas cá a casa, por favor …”
- “O que se passa contigo Fátima…essa voz…pareces-me angustiada…fala, diz-me o que se passa contigo por favor.”
-”O teu marido está aí?”
- Não, hoje vai chegar um pouco mais tarde, faz serão, nem me confirmou ainda se vem p’ra jantar, mas porque perguntas pelo Ricardo…estás a deixar-me inquieta Fátima”.
- ”Teresa, vem cá depressa, preciso falar-te pessoalmente…é urgente…eu ia aí ter contigo, mas não me sinto muito bem…vem já por favor.
- “Acalma-te, dá-me dez minutos”.
Teresa chegara rapidamente. Um mútuo olhar, fugaz, suprimira as palavras…Não eram necessárias... Fátima apressou-se a entregar-lhe a carta pedindo-lhe que a lesse. Teresa, leu-a calmamente em voz alta, certificando-se dos pormenores da missiva.
“Querido Ricardo, não sei como tenho conseguido lidar com tudo isto…tem sido tão difícil… sinto-me exausto… Cheguei a um ponto em que já não consigo mais esconder-lhe e esconder-me. Ela não merece esta omissão…
Nunca amei outra mulher como amo a Fátima e é por respeito a esse sentimento, que lhe devo a verdade. Mas sou um cobarde, falta-me a coragem… Tenho tanto medo de perdê-la e de destruir o sonho de um dia termos filhos…sabes como eu gosto de crianças não sabes? Que pergunta idiota se da minha vida nada me resta contar-te…
Por vezes dou por mim a pensar como se foi instalando em mim este sentimento, mas não encontro resposta apesar de esquadrinhar incessantemente memórias antigas…
Lembro-me do Verão passado como se fosse hoje. Estávamos de férias; os quatro, como de costume, sobre aquele sol tórrido de Agosto que a brisa marítima ajudava a suportar, e foi naquele momento, no momento preciso em que o meu corpo se incendiava estirado ao Sol que te vi surgir da água em alegre correria. Naquele teu jeito traquinas, repousaste em mim por breves segundos, lembras-te?. Senti a frescura do teu corpo colado ao meu, o teu sorriso maroto quase roçando a minha boca e pela primeira vez na vida experimentei algo que julgara impossível. Desejei que te demorasses, desejei querer suportar o peso do teu corpo infinitamente e senti que não haveria nenhum Sol de Verão que me pudesse aquecer tanto como naquele momento…Tu eras o meu Sol e continuas a sê-lo.
O que depois aconteceu como sabes, foi de um sofrimento atroz, sobreveio a angústia por medo de expor-te os meus sentimentos, mas felizmente, tive a coragem que agora me falta; fico-te imensamente agradecido por me teres compreendido e aceite como teu amigo e amante.
Não te quero perder, assim como não quero perder a minha mulher que continuo a amar, mas carrego esta culpa que me tornam insuportáveis os dias…Gostava de poder conviver pacificamente com o meu sentir, tal como tu o fazes, mas não sei se vou conseguir. Conheço-me o suficiente para saber que só terei descanso quando lhe contar; assalta-me a culpa, cresce-me o remorso, mas sei que vou ter a coragem de poder dizer-lhe um dia, olhos nos olhos, que descobri algo em mim que se encontrava profundamente adormecido… Se ela não me aceitar não a censurarei, mas a minha descoberta, a descoberta que faz parte da verdade de que sou feito não a quero mais amordaçada, e esta convicção a ti te devo...
Um beijo
André
Continuaram abraçadas, misturando lágrimas, afagando-se mutuamente; depois, a serenidade chegou sem que a chamassem. Olharam-se fixamente nos olhos, cada uma tentando soltar uma palavra, um som que fosse…”Eu amo-o tanto”, disse Fátima.
“Minha querida, eu já sabia do envolvimento entre os dois; não foi necessário que o Ricardo me contasse, conheço-lhe a alma, leio-o nos olhos; mas Fátima, minha amiga, a ti jamais contaria, tinha receio da tua reacção, por isso, a todo o momento, esperei que a verdade te chegasse pelo André.” “Entendo”, disse Fátima.
Teresa soltou um suspiro de alívio e sorrindo disse-lhe:-”Quando casei com o Ricardo já o sabia…Eu amava-o, amava a sua frontalidade, o modo como enfrentava o mundo; pelos cornos, sem medo. Essa autenticidade fez-me aceitá-lo tal como é, e hoje, continuo a amá-lo, incondicionalmente, porque sei que essa é a maior prova de amor que podemos oferecer um ao outro.
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.