Em pose de estátua estavas. Trapos brancos envolviam-te o
corpo, também de branco pintado. Cheiravas a angústia e a
tristeza. Até mesmo, quando uma mocinha te lançou uma moeda
não se te viu um sorriso, um aceno agradecido. Não…não fazias
de conta…não eras a estátua triste… eras uma triste estátua,
resignada e agonizante.
Eras a única naquela rua íngreme e “movimentada” de Lisboa…
quase ninguém dava por ti; reparei até, que algumas pessoas
evitavam olhar-te…talvez pelo pesar que tu própria transmitias,
ou nelas recordavas…
Como sentirias tu, aí postada no alto, a indiferença dos seus
passos? Como era ver chegar a noite, com meia dúzia de
moedas por contar?
Não é fácil a vida de pessoa, quanto mais a de pessoa-estátua…
Porque não emigraste? São tantas as cidades onde as estátuas
vivem melhor… onde as pessoas te olham de frente te acenam e
te reforçam continuamente pelo teu esforço de inércia feito.
O que fazes aqui na solidão da cidade, cada vez mais triste, vazia
e pesarosa?
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.