Abanava a amendoeira com a força dos seus dez anos, secundado por um grupo de pirralhos da sua idade, na espera que do alto se soltassem os blindados frutos, quando de repente e sem que nada o fizesse prever, algo vindo do céu, que não uma amêndoa, chocou com estrondo na sua testa, a modos como admoestando-o pela origem do acto .
Entreolharam-se estupefactos ao ver que da cabeça do António se abria uma ferida, como se tivesse sido golpeado por uma qualquer arma de arremesso. Com alarido olhavam para a copa da árvore de olhos esgazeados, como se dela pudessem obter uma explicação, mas o único som audível, foi o de uma amêndoa retardatária que se esgueirava pelas folhas direitinha ao solo.
António percebia que todas as atenções recaíam sobre ele, mas não sabia ainda ao certo o motivo de tanto alvoroço. Parecia hipnotizado, ou muito provavelmente ainda aturdido, até que um dos garotos gritou alto e bom som: - “Estás a deitar sangue da cabeça”. António julgando tratar-se de uma partida desatou a rir, ao mesmo tempo que passava as mãos pela cabeça, e, mais convicto ficou, de que tudo não passava de uma brincadeira, quando, depois da inspecção concluída, verificou que não havia quaisquer vestígios de sangue. Voltou então, resoluto, já sem o apoio da criançada, a abanar a amendoeira, quando percebeu que a sua camisa progressivamente se tingia de sangue. Incrédulo e aflito levou os dedos à testa onde se desenhava uma ferida profunda, até então indolor. As lágrimas começaram a rolar…”tens que levar pontos” dizia um…”tens que ir para o hospital” dizia outro, até que o choro sobreveio convulsivo e descontrolado.
O que ficara ainda por apurar era o móbil do “crime”. Como teria sido possível ocorrer algo assim? Perguntavam-se. Que a “coisa” tinha vindo dos céus, lá isso tinha; mas uma amêndoa, por maior que fosse não poderia ser a causadora de tamanho ferimento. Tinham apenas uma certeza, o que quer que fosse tinha caído da amendoeira e procurado com acerto a testa do infortunado António.
Fez-se um silêncio sepulcral, quando a seus pés, expulsas pelo vento, duas pedras brancas da calçada que moravam em equilíbrio instável nos galhos da amendoeira dela se desprenderam procurando o seu habitat natural.
Não foi sem dor que deslindaram o “mistério”.
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FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.