Quero vossas carnes, vossos espíritos, vossos pensamentos
Quero o que há em vós de puro e indecente, quero vosso Deus e vosso demónio, a comungar na missa que eu mesmo prepararei.
Quero vossos pudores, vossa fé, quero vossos amores e o quanto há sobrado em voz do Amor maior.
Quero vossos corpos estendidos ao sol, quero minha mente imersa na bruma,
Quero a cópula dos inocentes, o amor dos amantes e a luz terrificante de um sol que não nascerá jamais, e que jamais se pôs...
Quero as prostitutas transfiguradas pelo amor inexcedível do Cristo,
E quero padres corruptos, que vendem e fornicam apesar da cruz.
Quero a alma do vinho, e seu indescritível sabor, quero o cheiro da noite, a humidade da madrugada, quero não compreender a grande arquitetura.
Quero vossos desejos, vossa solidão, vosso sexo, vossa fé tantas vezes perversa...
Quero habitar nos pensamentos, nos acidentes, nas montanhas, nos mares que conduzem a continentes...quero ser a razão justa e precisa, a medida parcial, o pastor que apascenta e o vento que enche de temor o rebanho.
Quero a paz dos descampados, dos edifícios, dos mortos, quero a paz transtornada e incompreensível dos vícios, quero a paz de mim mesmo quando havia ainda alguma paz em mim...quero não querer, não ser, não participar.
Quero não ir a festas, a aniversários, a casamentos, quero jamais erguer de novo uma taça, embora deseje em mim todo o seu conteúdo.
Quero a paz das ruas que me viram criança, e que desconheciam, cheias de barro e descalçadas, a tristeza magnífica da Itália.
Quero mulheres nuas, amores incompletos, relacionamentos secretos e toda a luz que um dia poderá lançar sobre nós o Evangelho.
Quero o amor, a arte, o corte, quero a sorte de ser mortal e toda desgraça indiferente que traz a morte.
Quero olhar-me e não me reconhecer, quero o perfume que senti um dia nos cabelos de Ana, e quero a luz dos seus olhos...quero a treva da noite, a geometria complexa dos espaços, a sensação do ir e vir da onda.
Quero o amor, a arte, a guerra, quero o cheiro das manhãs que exalam esperança...
Quero a mão do Cristo, e a sexualidade enlouquecida do demónio...
Quero o amor, a fuga...
Quero a morte, e quero renascer.
Quero a vida outra vez....
Eduardo Bechara
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.