Caminhavam sob um sol escaldante de Agosto. Até o velho cão que todos conheciam na vila acompanhava o cortejo. Há muito que decifrara os códigos do bater do sino da igreja, não era pois de espantar a sua presença. Ali seguia ele, vagaroso, acompanhando a preceito o ritmo dos passos pesarosos e indolentes das criaturas que em surdina pediam, segurando o terço gasto por infinitas preces, a paz ao filho da terra que o vira nascer.
Parecia humana a criatura de quatro patas. A cabeça, quase roçava o asfalto em brasa, e o olhar, lacrimoso e terno, pousava de quando em vez numa ou noutra face dolorida, confortando-lhes a alma.
Cumprido o acto solene, precipitavam-se os vivos no adeus ao morto, queriam vê-lo, muitos apenas por hábito; funeral sem ver o morto não era funeral; outros, intensificavam o choro, gerando uma histeria quase colectiva.
Mas não acabava ali o enterro, sem que o “Bogas”, assim se chamava a criatura assente nas patas traseiras, lançasse um uivo lancinante direitinho ao alto.
Nunca soube se era a expressão do seu último adeus, ou se, para o morto, pedia a melhor morada.
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.