Esse abraço estranho de tempo e infinito
De olhos que entram em olhos,
E essa perda imensa que começa a desenhar-se
Na primeira vez que uma mão toca outra.
Nossos copos vazios, nossos corpos no espelho,
E o estilhaço do outro nos nossos peitos.
Nossas contas, nossas coisas ridículas,
Nossas idiossincrasias, e nossa vontade de
Que o mundo se acabe, ou tivesse acabado
Em nosso primeiro beijo. Brinde de tanta coisa
Que não existirá jamais.
Aquele corpo que dança, de olhos verdes e brilhantes,
Que foi teu um dia, que foi meu,
Não nos pertence mais. Pertence ao tempo, que passa,
E com ele nosso mar de desejos que se transmuda
Em deserto.
Há poesia enfim em cada pedaço de nós.
Há poesia em todos nós, há poesia em mim,
No Cristo, no elevador, no pescoço.
Há poesia no vício, no chão, no céu, há uma poesia
Imensa e misteriosa no diabo,
E um outro tanto nos anjos.
Há poesia nos teus olhos
E há também alguma poesia em minhas mãos
Cheias de sangue.
Há poesia nas cores, na água, nos animais,
Há poesia no ódio e no perdão,
No ócio e no trabalho.
Há poesia nos trens suburbanos lotados
E nos carros de interiores artificialmente refrigerados.
Há poesia no cheiro horrível que se desprende dos esgotos
E no perfume, às vezes um tanto enjoativo, das flores.
Há poesia no Verão de sol forte e corpos morenos
E no Inverno de sol aparente, que acalenta
A nudez pálida dos amantes.
É certo que há poesia demasiada no vinho,
No fim dos caminhos, nas trevas, e há,
É claro, toda a magnífica poética da luz
Incompreensivelmente dissociada do sexo.
Há poesia no beijo, na boca,
Na rosa louca que um dia me entregaste
Há poesia na flor, no beija flor.
Só não há poesia em mim
Sem você.
- Eduardo Bechara -
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.