Acendi uma vela na casa do Senhor…numa de tantas casas que ele tem aqui por Lisboa. Felizmente que não paga renda nem se lhe conhecem dívidas. Penso que a Santa Criatura já se contentaria em ser Deus aqui na Terra, agora ser rico e poderoso Ele nunca imaginou vir a ser; mas os homens seus filhos, com arte e engenho, lá foram construindo um império em seu nome, um poderoso império assente no medo e nas labaredas do purgatório; método infalível com provas dadas por séculos e séculos. Só não tenho a certeza do que Ele sentiria, se num ímpeto saudosista, surgisse de repente ao nosso convívio. Decerto o Santo Padre ruborizaria nas suas vestes Armani, sapatinhos Prada e algumas bugigangas auríferas próprias da sua humilde ostentação…decerto flagelaria o corpo cansado por tanta oração e penitência, decerto faria greve de fome até ser conduzido em espírito ao reino dos céus…ou a outro qualquer, porque nem sempre somos merecedores das escolhas que fazemos. Enfim…acho que divaguei em demasia e não era esse o meu propósito.
Dizia eu que acendi uma vela na Casa do Senhor; uma vela por todos aqueles que de mim partiram, mas que sinto em mim, em presença e em guarda. Tenho saudades, muitas saudades de abraçar cada um deles, dizer-lhes que lhes sinto a falta, pedir-lhes que me dêem coragem para suportar inevitáveis perdas e outros sufocantes constrangimentos impostos pela lei da vida.
A vela arde em chama constante e vivaz, em seu redor outras crepitam, trémulas, como as mãos de uma velhota viúva sentada do outro lado da nave a suplicar aos céus dizeres inaudíveis. O que pedirá ela perguntei-me? O que pediremos nós senão lenimento para as nossas dores, as dores da alma e as outras, as que nos dobram o corpo e nos fustigam a carne.
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.