A dependência alcoólica constitui um risco maior de aparecimento de uma perturbação psiquiátrica e, nomeadamente, de perturbações ansiosas e depressivas. As outras perturbações psiquiátricas, mais raramente associadas à dependência alcoólica, são as psicóticas (psicoses alcoólicas).
No conjunto das complicações do alcoolismo, a classificação do DSM-IV individualiza, enquanto entidades clínicas distintas:
- as depressões induzidas pelo álcool;
- as perturbações ansiosas induzidas pelo álcool;
- as perturbações psicóticas induzidas pelo álcool.
Seja qual for a sua expressão clínica, a gravidade das perturbações psiquiátricas está relacionada com o grau da dependência alcoólica.
McLellan e col. (1986) confirmaram a relação existente entre perturbações psiquiátricas e a síndrome de dependência em 131 pessoas dependentes do álcool. Avaliaram a gravidade dos comportamentos de dependência através de uma escala global, a ASI (Addiction Severity Index).
Este estudo demonstrou que os sujeitos com índices de dependência mais baixos manifestavam menos sintomas psiquiátricos associados e a melhor evolução aos seis meses. Os pacientes com maior dependência apresentavam mais sintomas depressivos, ansiosos e psicóticos.
DEPRESSÃO E ALCOOLISMO
Estudos efectuados sugerem que, a prevalência da depressão nos alcooldependentes está compreendida entre os 30% e os 50%. Foram observados em cerca de um quarto a dois terços dos alcoólicos, num dado momento da sua vida, sintomas depressivos graves que comprometiam a sua adaptação social e familiar. Em cerca de 90% dos sujeitos alcooldependentes, quando depressão e alcoolismo ocorriam em simultâneo, o diagnóstico principal foi de alcoolismo. Na altura da abstinência, verificam-se muitas vezes reacções depressivas de gravidade variável.
- As reacções depressivas precoces que ocorrem durante as três primeiras semanas são marcadas por fadiga, abulia, humor triste e lábil, irratibilidade e ansiedade (estados asteno depressivos da abstinência). São de curta duração e parecem estar mais relacionadas com os efeitos da própria intoxicação do que com a abstinência. Na maior parte dos casos, corrigem-se com a continuação da abstinência.
- As depressões tardias aparecem durante os meses ou anos que se seguem à abstinência e são um factor de risco de recaída alcoólica. Podem significar o regresso ao álcool, mais ou menos dissimulado pelo paciente. Os sintomas mais frequentes são, por ordem decrescente, diminuição de energia, culpabilidade, dificuldades de concentração intelectual e desinteresse pela vida.
Fora dos períodos de abstinência, os pacientes alcoldependentes ficam de igual modo expostos à depressão. Esta depressão pode resultar dos efeitos depressogénicos da intoxicação alcoólica. Uma ingestão abundante de álcool pode induzir um estado depressivo transitório.
Este efeito é mais frequente nos sujeitos dependentes. A repetição da intoxicação resulta então de um círculo vicioso psico-comportamental caracterizado pelo contraste permanente entre os efeitos obtidos (tristeza, depressão) e as expectativas do paciente (procura de um efeitoeuforizante).
O diagnóstico clínico de depressão no alcooldependente pode ser dificultado pela grande semelhança entre os sintomas de intoxicação ou abstinência alcoólicos e os sintomas depressivos. Com efeito, são comuns ao alcoolismo e à depressão as perturbações do sono, o desinteresse, o retraimento, a irritabilidade, a fadiga, a ansiedade, os sentimentos de culpa, a anorexia e os problemas sexuais.
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.