Estudo efectuado no âmbito da cadeira de História dos Sistemas em Psicologia, do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA).
INTRODUÇÃO
Até ao princípio dos anos 60 as poucas pessoas que não fossem médicos, psicólogos ou professores tinham ouvido falar em crianças autistas. Contudo, hoje em dia, à medida que os problemas destas crianças são abordados em jornais e revistas, a maioria das pessoas vão tendo conhecimento da existência de crianças autistas, mesmo que seja um tanto vaga a ideia que fazem a seu respeito.
Este facto poderá levar a pensar que o autismo infantil constitui um problema novo, mas a verdade é que mesmo em documentos escritos há muito tempo podem-se encontrar referências a crianças que sem dúvida eram autistas. Um dos livros mais interessantes a este respeito foi publicado, pela primeira vez, em 1799 com o título “O rapaz selvagem de Aveyron”. O seu actor, o médico francês J.M.G. Itard, recebeu a seu cargo um rapaz de 12 anos – Victor – que havia encontrado a vaguear nos bosques de Aveyron. A descrição do seu comportamento e dos métodos especiais de ensino criados por Itard tornam esta história muito interessante e comovedora. As suas ideias quanto à educação de crianças diminuídas continua a ser utilizadas mesmo nos nossos dias. Contudo, só recentemente reconheceu-se que as crianças que sofrem de autismo constituem um grupo distinto em relação às que sofrem de outras deficiências.
Assim, foi em 1943 que um psiquiatra infantil americano, Leo Kanner, descreveu pela primeira vez o sindroma do autismo precoce infantil. A palavra autismo provem do grego, autos, que significa eu ou próprio. Kanner usou este termo porque as crianças passam por um estádio em que estão muito voltadas para si mesmas e não se interessam muito pelas outras pessoas. No entanto, muitas delas, apenas se comportam desse modo, quando muito novas (até aos 5 ou 6 anos) e, por isso, esta designação não é realmente satisfatória. É portanto, necessário encontrar um novo termo, mais rigoroso, que seja ao mesmo tempo simples e preciso para que o seu uso constitua prática geral mas, até agora ainda ninguém conseguiu propor um termo que pudesse ser aceite.
Mesmo depois de Kanner ter descrito e dado um nome a estas crianças, passaram-se quase vinte anos até que as pessoas começassem a ouvir falar delas. Hoje em dia verifica-se um interesse mais generalizado porque mudaram as atitudes em relação a todo o tipo de deficiências e as pessoas estão dispostas a discutir estes problemas e a ajudar no que puderem, é disso exemplo as várias associações que foram criadas e que prestam ajuda extremamente meritória às crianças autistas.
É um facto que o autismo infantil é m afecção rara em comparação, por exemplo, com o sindroma de Down, nome correcto do mongolismo, mas, por outro lado, é suficientemente comum para que a maioria das pessoas tenha conhecimento de pelo menos um caso de autismo, quer se trate de um vizinho, de um parente afastado, ou do filho ou filha de alguma pessoa amiga.
O objectivo deste trabalho é sobretudo o de reflectir e informar sobre a origem, sintomatologia e diagnóstico desta preocupantes doença, o comportamento dessas crianças e a maneira como esse comportamento afecta as suas famílias.
Temos consciência que este trabalho não abarca (dada a complexidade do tema) na sua totalidade o fenómeno “autismo”. Alguns autores, como Margaret Mahler, Francês Tustin, Meltzer e outros, que desenvolveram estudos nesta área, classificando os estados psicóticos infantis e estabelecendo uma relação com as possibilidade de tratamento efectivo, com a utilização do modelo psicanalítico, não são aqui abordados pormenorizadamente, ficando a promessa de uma abordagem mais rigorosa relativamente a estes autores.
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.