Alguns estudos prospectivos permitiram seguir durante vários anos um número considerável de pacientes. Todos os estudos publicados confirmam a enorme variabilidade da evolução da dependência de um paciente para outro, bem como a dificuldade de estabelecer, para um só indivíduo ou para um grupo de pacientes, prognósticos fiáveis.
Constituem referências, pela extensão do período de observação e pelo seu rigor metodológico, os famosos trabalhos de Vaillant e col. e, mais recentemente, os de Moos e col..
Vaillant e col. (1983) estudaram prospectivamente 456 homens do centro de Boston. Esses sujeitos foram acompanhados desde a adolescência (cerca de 14 anos) até à idade adulta (47 anos). As perturbações ligadas ao álcool eram avaliadas de forma sistemática. Os autores verificaram que, aos 47 anos, mais de metade dos sujeitos que tinham registado num dado momento da sua vida um abuso manifesto de álcool, se tinham tornado totalmente abstémios ou consumidores ditos sociais com uma alcoolização integrada.
A análise das observações individuais evidencia a variabilidade da dependência no tempo. Nem o abuso de álcool nem a dependência implicam evolução irreversível. Nenhum factor psicológico, familiar ou social se revelou pronunciador da evolução.
Os sujeitos dependentes, agora abstinentes, atribuem essa evolução à sua própria vontade, aos efeitos negativos do alcoolismo na sua vida pessoal ou na sua saúde, ou ao facto de terem encontrado uma nova fonte de esperança ou de interesse, ou ainda a uma relação afectiva íntima com um novo companheiro.
Estes resultados provam bem, quanto a evolução do alcoolismo fica em aberto, não obstante o carácter repetitivo e por vezes desencorajador das recaídas na sequência de uma abstinência.
Por sua vez, Moos e col. (1990) observaram durante 10 anos, 113 pacientes alcoólicos tratados segundo diferentes programas. No conjunto dos pacientes, 19 (16,8%) morreram, 47 (57%) não recaíram e 36 (43%) voltaram ao álcool de uma forma patológica.
Do ponto de vista da dependência alcoólica, verificou-se grande estabilidade dos pacientes entre o segundo e o décimo anos. A maior parte dos que se tinham tornado abstémios ao fim de dois anos, assim se mantinham ao fim de dez, enquanto os que tinham recaído precocemente continuavam a beber dez anos depois. Os que, dez anos depois, não eram mais dependentes bebiam significativamente menos álcool do que o resto da população em geral.
O seu funcionamento social e a qualidade dos seus investimentos familiares continuavam a melhorar com a abstinência. De facto, era melhor o funcionamento nos sujeitos abstémios havia dez anos do que o dos que o eram havia apenas dois.
Esta melhoria pode ser interpretada como um fenómeno de maturação progressiva observado nos alcoólicos que conseguiam manter uma abstinência prolongada. Os sujeitos que tinham recaído eram mais deprimidos e mais ansiosos do que os sujeitos de controlo e eram mais confrontados com stress e dificuldades familiares ou profissionais.
Nesta perspectiva, a classificação americana do DSM-IV propôs quatro formas distintas de
remissão:
- As remissões precoces completas relativas aos sujeitos que não tenham correspondido a nenhum dos critérios de dependência ou de abuso durante mais de um mês e menos de um ano.
- As remissões precoces parciais caracterizam os sujeitos que, durante mais de um mês e menos de um ano, tenham correspondido a um ou mais critérios de abuso ou dependência alcoólica sem, no entanto, corresponderem a todos eles.
- Se for superior a um ano, a remissão é prolongada, parcial ou total segundo o paciente tiver conseguido ou não manter a abstinência total.
O DSM-IV estabelece o prazo de um ano para se poder considerar prolongada a remissão, porquanto os doze primeiros meses que se seguem à privação constituem um período de alto risco de recaída.
Sem deixar de reconhecer o carácter crónico da dependência alcoólica, a classificação do DSM-IV lembra também que pelo menos 20% dos sujeitos dependentes se tornam definitivamente abstémios.
Algumas destas curas definitivas surgem na sequência de uma situação de grande stresse, tal como uma sanção legal relacionada com o álcool ou uma complicação somática grave induzida pelo alcoolismo.
Partindo do conjunto destes dados, assim como da experiência quotidiana, poderemos concluir que, o comportamento alcoólico raramente evolui por si só. Inscreve-se num período de tempo que é o da vida inteira do sujeito e, por isso mesmo, e para além dos factores que a tenham determinado, é submetida aos momentos existenciais felizes ou infelizes, bem como ao impacto de acontecimentos da vida, êxitos inesperados, encontros e imprevistos.
O comportamento alcoólico não deve ser considerado inalterável na sua evolução; tal como qualquer modalidade comportamental mais ou menos permanente, inscreve-se na transformação própria da pessoa e, por isso, está sempre sujeito a alterações, a evoluções positivas ou negativas inesperadas, a incertezas.
Quaisquer que sejam a gravidade e a duração da dependência, todo o pedido de abstinência, explícito ou implícito, deve ser entendido ou suscitado. O paciente que recorra voluntariamente ao seu médico assistente devido a uma doença inter corrente ou a uma complicação da dependência pode, nesse momento, aderir a um programa de cuidados eficaz.
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.