A alcoolização crónica induz muitas outras alterações dos parâmetros biológicos, tais como o aumento do colesterol HDL, dos triglicéridos, das taxas de ácido úrico e de ferritina sérica. O aumento do colesterol HDL parece estar fortemente relacionado com uma alcoolização recente. As fosfatases alcalinas, a bilirrubina e o ácido úrico aumentam também no alcoólico. Todavia, nenhum destes exames é específico da ingestão de álcool ou da dependência alcoólica.
- CDT (Carbohydrate Deficient Transferrine)
É considerada um indicador de futuro alcoolismo. Se bem que a sua utilização na prática quotidiana não seja fácil para já, nem recomendada ainda, a dosagem do CDT foi estudada em inúmeros trabalhos de pesquisa com resultados promissores. Observa-se um aumento regular do CDT no consumidor excessivo de álcool.
A sensibilidade do teste é de 65% a 95% e a sua especificidade muito elevada, da ordem dos 97%. As únicas causas conhecidas de falsa positividade são as cirroses hepáticas avançadas, particularmente ligadas às cirroses biliares primitivas, a hepatite crónica activa ou ainda as hepatites tóxicas. Apesar de tudo, estes casos são raros e a maior parte dos pacientes com patologia hepática registam taxas de CDT normais (Stibler, 1991).
A complexidade da dosagem do CDT, que requer técnicas de imunofixação, limita ainda a sua difusão na prática quotidiana.
- Dosagem do Acetaldeído
Este doseamento foi utilizado como indicador de alcoolização recente. Também aqui, as dificuldades deste exame restringem a difusão da técnica.
Estes dois últimos doseamentos, CDT e acetaldeído, são sobretudo utilizados nos trabalhos de pesquisa que requeiram uma avaliação padronizada e específica do comportamento alcoólico.
- Utilização simultânea de vários parâmetros biológicos
A forma mais pertinente de se proceder ao despiste de um comportamento de dependência alcoólica ou de abuso de álcool é a utilização simultânea de vários parâmetros biológicos. Se, num mesmo sujeito, os valores do VGM e da gama-GT aumentarem, a causa mais provável destas duas anomalias será o álcool.
O tratamento antiepiléptico e as doenças hepáticas não alcoólicas podem no entanto causar um aumento simultâneo dos valores do VGM e da gama-GT. Se juntarmos aos dois exames precedentes a dosagem dos AST, a sensibilidade e a especificidade dos testes biológicos aumentam.
Num paciente em abstinência, as taxas da gama-GT, da ALT e das AST diminuem e podem descer a valores normais em 4 a 6 semanas. Se o paciente beber álcool durante o período de abstinência, as taxas da gama-GT e da ALT aumentarão pelo menos de 20% e a da AST aumentarão de 40%, em relação aos seus valores anteriores.
A dosagem sistemática das três enzimas é, portanto, um método sensível e específico de identificação das realcoolizações. Se o paciente se mantiver abstinente, os valores das enzimas hepáticas não aumentarão de novo.
A sua diminuição global atesta o efeito benéfico da abstinência sobre o fígado. Tem valor de estímulo para o paciente e pode ser utilizada como factor de reforço da abstinência.
- Prescrição para o despiste de dependência alcoólica ou de abuso de álcool:
Proceder em jejum aos seguintes exames: Gama-GT, AST, ALT, avaliação do VGM.
- Prescrição, após duas a três semanas de abstinência, para a objectivar e identificar uma eventual nova alcoolização:
Proceder em jejum aos seguintes exames sanguíneos: Gama-GT, AST, ALT.
- Prescrição, após seis a oito semanas de abstinência, para confirmar a sua persistência:
Proceder em jejum aos seguintes exames sanguíneos: Gama-GT, AST, ALT, avaliação do VGM.
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.