Ainda na esteira da avaliação psicológica, julgo ser relevante referir-me a estas duas dimensões, (o real e o imaginário) pela importância de que se revestem no exame psicológico, dando-vos alguns exemplos sobre o que as distingue.
Consideremos a gravidez. A criança já é pensada pela mãe antes de nascer (nível do imaginário), mas estar grávida e ter um filho são realidades que no entanto se distinguem. Uma mulher grávida tem um sentimento de plenitude narcísica, na medida em que está em relação consigo própria. Quando dá à luz estabelece, não já, uma relação consigo própria, mas com o outro. Isto implicará necessariamente um sistema de interacção entre a mãe e o filho.
Na dimensão da realidade é importante perceber se o bebé nasce convenientemente ou se algo anormal se passou no período de hospitalização da mãe. Portanto, estes dois pólos, o real e imaginário são de uma importância extrema na construção da anamnese.
Posteriormente torna-se essencial perceber que tipo de sintomas a criança manifestou (dimensão do real), perguntando à mãe por exemplo, como era o bebé quando nasceu e como é que ela se sentiu face a esse acontecimento, porque a experiência diz-nos que, em alguns casos podem surgir, experiências disfóricas (depressivas) por parte da mãe ao ver pela primeira vez o bebé. É também importante saber se os sintomas do bebé têm tendência a repetir-se (cronicidade).
Ao terceiro mês de vida, em que o primeiro organizador é o sorriso (Spitz), e em que a criança começa a elaborar uma Gestalt e a criar uma dinâmica própria, é imprescindível estar atento aos problemas que eventualmente possam surgir, quer sejam intestinais, dermatológicos, alérgicos, etc.). No oitavo mês de vida, que corresponde ao segundo organizador - a angústia do estranho, (Spitz); os bebés estão aptos a elaborar uma experiência subjectiva de si próprios; elaboram a experiência do rosto, que é o primeiro lugar da identidade (os outros são o nome e o género) e criam em simultâneo a imagem do rosto da mãe; “vêem-se nos olhos da mãe” (Winnicott). A angústia do bebé surge nesta etapa do desenvolvimento, quando a mãe se encontra perto do estranho. Esta angústia permite-lhe descentrar-se dela e elaborar o seu próprio rosto como lugar de identidade, podemos perceber isso mesmo, quando o bebé vendo-se ao espelho rejubila por nele se ter reconhecido.
É também necessário estar atento aos objectos fobogéneos, isto é, os que são indutores de medo na criança, porque se estes medos persistirem devem ser motivo de alguma preocupação e. como tal, devem ser objecto de análise.
É importante perguntar à mãe sobre o controlo dos esfíncteres, sobre as separações no 3º e 8º meses, sobre a perca e o abandono e assegurar-nos que a criança possui um psiquismo que lhe permite criar a presença na ausência – quando a mãe não está presente, por exemplo.
É também relevante, quando a criança começa a frequentar a escola, questionarmos os pais ou os encarregados de educação sobre o sucesso ou insucesso nesta área. No período da puberdade-adolescência é necessário saber se houve alguma problemática ao nível da relação com o corpo – uma imagem corporal é sempre investida pelo imaginário e toda a adolescência reveste-se de um reenvestimento no corpo. Não esqueçamos que toda a nossa actividade projectiva tem um suporte que é o corpo e que a noção de tempo e de espaço é criado na relação. O corpo é assim, um esquema de representação mental. Torna-se indispensável também, recolher informação sobre as escolhas de parceiro sexual, que tipo de relação estabelece e como o adolescente lida com os critérios familiares. O paradigma essencial é a conflitualização dos problemas fundamentais ao nível do psiquismo.
Os adolescentes têm, tal como os adultos, direito aos seus próprios critérios, às suas escolhas; estarmos atentos ao modo como reagem face a uma determinada problemática, isto é, se passam ao acto ou se conflitualizam ao nível psíquico de forma a que não surjam atitudes rígidas e extremadas são aspectos fundamentais a ter em conta na construção da anamnese e no estabelecimento de um diagnóstico.
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.