Na abordagem de quase todas as doenças e em particular nas perturbações mentais há que realizar uma reflexão sobre uma série de conceitos:
MENTE vs. CORPO
De nada nos serve uma compreensão cartesiana que separa a mente do corpo. Devemos considerar a pessoa como uma unidade indivisível em permanente inter relação e inter influência. Os aspectos biológicos modificam o estado de ânimo, mas também uma alteração psíquica confirmada modifica os aspectos biológicos. O mesmo podemos dizer dos aspectos biológicos e dos aspectos psicológicos; para a compreensão global de uma perturbação, devemos considerá-los como uma unidade. Este conceito servirá para reflectir e trabalhar sobre a globalidade do ser humano e do seu cuidar, como uma totalidade.
MOMENTO TRANSVERSAL vs. PROCESSO LONGITUDINAL
Se bem que uma perturbação se apresenta num momento concreto (episódio, corte transversal), é necessário considerarmos sempre o processo longitudinal (história e curso) em que este está contido. Nunca uma fotografia explica a totalidade da vida de uma pessoa nem o seu padecer. Este conceito poderá servir para reflectirmos sobre o que aparece no momento da consulta, sobre o que se passou antes e sobre a importância do seu curso.
PESSOA vs. GRUPO
Todo o ser humano nasce e vive em grupos. Como tal, a compreensão da pessoa deve ser realizada tendo em conta a observação dos grupos que a rodeiam e com os que ela interage. Este conceito servirá para trabalhar em torno dos grupos de pertença da pessoa, considerando a importância que tem o grupo de pares no momento em que se dão alterações distintas de comportamento, não esquecendo obviamente a importância do papel da família.
RELAÇÃO PROFISSIONAL OBJECTIVA vs. SUBJECTIVA
A objectividade dos sintomas físicos de uma doença médica convertem-se em subjectividade nos sintomas psíquicos. Assim sendo, é necessária, na maioria das vezes, informação por parte da pessoa dos sintomas que apresenta e que são de difícil objectivação. Se assim for, a relação terapêutica profissional/cliente redundará num melhor conhecimento do problema. Isto servirá para melhorar a relação, profissional-cliente, tanto no que ao tratamento e ao seguimento correcto da saúde diz respeito.
CURAR vs. CUIDAR
Apesar de ser necessário pensar que o objectivo do tratamento é a cura da perturbação, muitas vezes isto não é possível, sendo pelo contrário sempre possível cuidar e quase sempre melhorar o estado de mal-estar. Expectativas irreais por parte do profissional o do cliente vão supor uma sensação de fracasso terapêutico em ambos que ensombrará o prognóstico e a evolução da perturbação. Como tal, destaca-se a importância do estabelecimento de contratos terapêuticos em que se especifiquem objectivos e metas de tratamento.
O MANIFESTO vs. O LATENTE
Em clínica, há que ter em conta tanto a morbilidade manifesta como a comorbilidade latente. Isto é, por detrás de toda a comunicação entre o clínico e o seu cliente existe informação implícita, que não se diz e que, no entanto, está presente. Este fenómeno ocorre, quer com o profissional, quer com o cliente e tem a sua origem em motivações conscientes e inconscientes. A experiência do clínico vai facilitar a leitura dos diversos níveis implicados.
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.