Habituara-se àquela casa de paredes grossas onde o sol raramente entrava. Sentia-se enclausurada e sem esperança a bela Vénus, desde que compreendera o significado da palavra amor.
Ela buscava um príncipe encantado, alguém que lhe beijasse a fronte e a libertasse do peso que o seu peito carregava, mas eles vinham e partiam, deixando-lhe feridas no corpo e na alma, matando-lhe a esperança num amor eterno.
O sofrimento que estoicamente suportava foi-se transformando num dom - ela compreendia a dor do mundo e sabia ler todos os corações, mesmo os mais indecifráveis. Parecia fácil a forma como os afagava, através das suas poções mágicas de palavras feitas. Era sábia aquela Vénus. Qualquer outra que tivesse experimentado as mais sublimes sensações e prazeres do corpo não a igualava em erudição e sapiência.
Ela viverá em clausura sim, mas será o veículo libertador de todos aqueles que a procuram através da luz que a força do seu grito transporta, e um dia, tenho a certeza, habitará num novo lugar, numa nova casa.
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.