Numa história clínica é sempre necessário procurar parâmetros que nos mostrem a que nível se situam as problemáticas mentais. Um dos aspectos mais importantes, diria mesmo fundamental a considerar, é a avaliação da qualidade da ansiedade dominante que o paciente apresenta na consulta.
Podemos considerar a existência de três tipos de ansiedade, que nos permitem perceber a dinâmica das diversas manifestações do sofrimento psíquico.
A ansiedade mais antiga, até ao oitavo mês, própria das organizações psicóticas, é a ansiedade da perda do amor do objecto. Nestas circunstâncias e havendo esse temor, o que pode acontecer é que o sujeito venha a erguer barreiras à construção da sua autonomia, do seu EGO, a fim de evitar esse sofrimento de perda. A segunda destas angústias pode surgir a partir do oitavo mês, quando se instala a angústia do estranho, é a chamada angústia de separação ou do medo da perda do objecto de amor,e, finalmente, a angústia mais tardia, típica das organizações neuróticas, a angústia de castração, que se instala por alturas do Complexo de Édipo, responsável por um certo grau de perda de liberdade.
A dominância da angústia que está presente, dá-nos por consequência, e de imediato, a noção do momento em que se provocou o trauma responsável pela paragem no desenvolvimento.
Quando somos confrontados com uma situação traumática de intensidade suficiente (por exemplo na infância), produz-se uma fixação, que nos conduz no futuro a um funcionamento semelhante ao ocorrido no momento do traumatismo. Essa fixação, não implica que o sujeito estagne e interrompa o seu desenvolvimento, implica antes sim, que haja uma regressão ao momento em que o trauma surgiu.
É muito importante, quando elaboramos a história clínica, perceber a qualidade do SUPEREGO. Segundo Freud, existem três instância psíquicas, e como tal, três causas de perturbação mental. Uma é o ID, o lugar do inconsciente. Ele representa a matriz orgânica donde deriva a vida psíquica e, por consequência só se está doente quando a matriz orgânica está comprometida. Porém, na esmagadora maioria dos casos, é o SUPEREGO que está implicado na desestruturação menta, porque em vez de funcionar como aliado do EGO, vai funcionar como seu inimigo, constituindo para o paciente uma fonte de inibições e de conflitos geradores de sofrimento.
O SUPEREGO, forma-se de maneira definitiva, por alturas do Complexo de Édipo, mas tem percurssores que surgem desde muito cedo no desenvolvimento e que podemos equiparar a uma noção moral do bem e do mal. Aqui não há ainda um SUPEREGO definitivamente formado.
O que podemos verificar é que nas patologias mais graves o SUPEREGO, é sempre dominantemente materno enquanto que em doenças menos graves a dominância é do SUPEREGO paterno (com uma excepção). E porquê? Para respondermos a esta questão teremos que voltar aos períodos mais remotos do desenvolvimento da criança.
A criança só começa a ter a noção da existência de um terceiro, a partir do oitavo mês, a noção de pai só vai surgir nessa altura. Nessa primeira fase, sabendo que depende por completo da mãe, vai temer que esta a castigue ou a ataque por qualquer razão desconhecida. A noção de “mau sei” vem do facto de que a criança imagina que a mãe conhecendo todas as suas carências, voluntariamente lhe está a provocar sensações de fome, de frio, etc.
A figura paterna, surge para impor limites e “separar” os filhos da mãe. Para o SUPEREGO materno, tudo é proibido, menos o manifestamente permitido; para o SUPEREGO paterno, tudo é permitido, menos o manifestamente proibido. O SUPEREGO materno vai sempre ser fonte de inibições, enquanto que o paterno pode vir a ser fonte de autonomia, ou, em alguns casos a cauda de patologia grave. O psicopata, por exemplo, vai sempre à procura de limites para reduzir a sua ansiedade; o que nos mostra um SUPEREGO sem limites (SUPEREGO paterno).
Ter uma noção do momento em que se verificou o traumatismo e por consequência quais as características do prognóstico, isto é, se a doença é ou não tratável, pode ser determinado através da análise da qualidade das defesas. Saber quais as que estão activas pode ajudar-nos a precisar o momento da situação traumática, desde que tenhamos em atenção que a defesa mais “avançada” é o recalcamento (utilizada nas estruturas neuróticas) e a mais antiga a projecção (mais utilizada nas estruturas psicóticas). Deste modo é possível determinar quais as perturbações mentais de melhor ou pior prognóstico.
Em suma, perceber qual é a parte dominante no SUPEREGO para se proceder a uma abordagem prognóstica, torna-se um elemento fundamental na clínica.
É importante ter ainda presente, que os quadros patológicos graves são caricaturas de nós próprios. Por esse motivo somos capazes de compreender a doença e escutar os pacientes sem que tal represente uma impossibilidade para o analista; isto porque vivemos ao longo do nosso desenvolvimento fases mais ou menos desestruturantes, mas não suficientemente intensas para configurar um quadro psicopatológico grave.
Fernando Barnabé
FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.