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Dissociação e Transtornos Dissociativos: Modelos Teóricos


Dissociação e Transtornos Dissociativos: Modelos Teóricos

Paulo Jacomo Negro Júnior(1) - Paula Palladino-Negro(2) - Mario Rodrigues Louzã(3)


RESUMO

A compreensão da experiência dissociativa e das origens dos transtornos dissociativos é uma temática difícil dada a sua complexidade. As contradições da classificação são decorrentes das dificuldades de se construir uma teoria da mente abrangente que unifique neurobiologia e psicodinâmica. Os autores discutem as bases conceptuais da dissociação com ênfase na integração entre neurobiologia e fenomenologia. O papel da aprendizagem é amplamente discutido, assim como as actuais teorias de neodissociação, trauma e sociocognitivismo para os transtornos dissociativos.

PALAVRAS CHAVE
Dissociação; transtornos dissociativos; modelos teóricos


INTRODUÇÃO

"O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?

Fernando Pessoa
“O Guardador de Rebanhos, XXXIX."


Dissociação: a (in)definição do conceito

O estudo dos fenómenos dissociativos e dos transtornos mentais associados à dissociação é um dos grandes desafios da psiquiatria. Muita da controvérsia nesta área deve-se à defesa de diferentes paradigmas, que correspondem, naturalmente, às diferentes formações científicas dos seus pesquisadores. O próprio termo "dissociação" pode ser entendido de diversas formas e dar margem a múltiplas interpretações, dependendo do contexto em que é utilizado. Não há uma definição única, simples e coerente capaz de obter o consenso dos pesquisadores nesta área.

Cardeña(1) agrupa experiências dissociativas no Domínio da Dissociação, baseado nos diferentes usos do termo.

Dissociação (ou a "desagregação" de Pierre Janet (2,3) implica que dois ou mais processos mentais não estão associados ou integrados.

Sob o ponto de vista do estudo da personalidade e do campo da Psicologia Clínica, o Domínio pode ser abrangido sob três perspectivas diferentes:

1) para caracterizar módulos mentais semi-independentes ou sistemas cognitivos não acessados conscientemente e/ou não integrados dentro da memória, identidade e volição (conscientes) do indivíduo;
2) como representação de alterações da consciência do indivíduo, em situações em que certos aspectos do Eu e do ambiente se desconectam;
3) como um mecanismo de defesa associado a fenómenos variados, tais como a amnésia psicológica, eliminação de sofrimento físico ou emocional, e a não integração crónica da personalidade (como no transtorno de personalidade múltipla).


Dissociação como módulos/sistemas não-conscientes

Três subdivisões são propostas(1):

a) Dissociação como ausência da consciência de estímulos ambientais ou de comportamentos em andamento (por exemplo, mudança de marchas ao dirigir o automóvel, sonambulismo e outros comportamentos ou percepções considerados "dissociativos" em sentido amplo). Tal definição exagera inapropriadamente o termo "dissociação" para incluir processos executivos não-conscientes e funções de monitoração neuropsicológica (é melhor não usar o termo dissociação para situações em que trazer o estímulo à consciência não é esperado em termos de funcionamento neuropsicológico normal devido a limitações físicas ou atencionais do indivíduo. Aceitar tal definição de dissociação implicaria viver a vida em estados dissociativos perpétuos).

b) Dissociação como coexistência de sistemas mentais separados que deveriam ser integrados na consciência, memória, ou identidade do indivíduo (exemplos: identidade – transtorno de personalidade múltipla; memória – memória dependente de estado ou reencenamento de memórias traumáticas em situações em que o indivíduo se diz amnésico para o trauma; volição – estados de transe ou possessão espiritual). Esse conceito de dissociação é datado do começo do século – Pierre Janet, Freud, Breuer – e envolve a noção de distúrbios dissociativos.

c) Dissociação como comportamento em progresso ou percepção inconsistentes com o relato verbal introspectivo do indivíduo (por exemplo, experiências hipnóticas e certos distúrbios neurológicos, como cegueira por lesão cortical – síndrome de Anton – e desconexão por comissurotomia). Indica inconsistência entre relatos sinceros de indivíduos sobre determinadas experiências e medidas fisiológicas/comportamentais.

Dissociação como alteração na consciência em que ambiente e o Eu se desconectam

Os conceitos anteriores de dissociação não implicam necessariamente mudanças qualitativas do estado de consciência, mas apenas na incapacidade de integrar processos mentais. Em contraste, essa definição de dissociação inclui situações em que o indivíduo experiencia estados distintos de consciência que envolvam uma separação ou desconexão entre a experiência fenoménica do ambiente e o ambiente propriamente dito.

Assim, uma vítima de violação pode desligar-se da situação e descrever ausência de experiências sensório ou emocional, mas vivenciar a situação como um observador fora do corpo (uma experiência de autoscopia). As experiências de despersonalização e de desrealização também podem ser classificadas aqui (como vivências de irrealidade e/ou anestesia mental/corpórea).

Dissociação como mecanismo de defesa

Mecanismo de defesa é um conceito teórico que diz respeito ao controlo de informações capazes de provocar ansiedade ou sofrimento. O conceito de dissociação como mecanismo de defesa é frequentemente utilizado.

Para a teoria psicanalítica, esse mecanismo é considerado proposital, ainda que inconsciente, podendo ser desencadeado por eventos específicos ou se apresentar como traço de personalidade. Segundo Pierre Janet, o fenômeno não teria origem proposital ou funcional, mas surgiria quando o indivíduo experiencia emoções "veementes" (inclusive terror) que levariam ao estreitamento do campo atencional e desorganização das funções usuais de integração das informações na consciência. Assim, experiências não integradas na identidade e memória de longo prazo do indivíduo se tornariam "idéia fixas" simples ou identidades alternativas complexas.

A dissociação como mecanismo de defesa poderia ter uma origem filogenética devido à adaptação conferida pela experiência dissociativa em situações traumáticas e a seu paralelo a comportamentos de passividade verificados em animais em situações de trauma inescapável (com a vantagem de possível conservação de energia em tais situações).

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betinhu

09-06-2009 17:05

nossa kra isso ajudou bastante muito obrigaduuuu

 

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FERNANDO BARNABÉ
Nasceu em Alvor, em 1958. Signo de Aquário com Ascendente Balança.

Desde a adolescência que se sentiu atraído pelo estudo do esoterismo. A Astrologia, no entanto, revelou-se, pela sua linguagem rica em simbolismo e significado...


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